sábado, 8 de setembro de 2012

CAMINHO PORTUGUÊS INTERIOR DE SANTIAGO - Morte à nascença


Podiam também chamar-lhe o caminho do sofrimento, o caminho da desgraça ou mesmo o caminho das almas perdidas.
Percorri de bicicleta há uns dias com um amigo, este recente inaugurado caminho e tendo já feito anteriormente dois percursos espanhóis, fiquei simplesmente decepcionado e indignado.
Resumidamente vou descrever alguns dos precalços neste trajecto.
Viseu, em frente à Sé
Tudo começa na povoação de Farminhão e começa bem. No Centro Social puseram-nos o primeiro carimbo na credencial do peregrino e lá fomos felizes e contentes, desde logo bem impressionados com os caminhos que atravessavam os bem delineados pinhais. Rapidamente as setas nos levaram ao centro de Viseu, o que nos sugeriu tomar o “mata-bicho” e ainda tirar umas fotos tendo como o pano de fundo, a Sé.
Lá continuamos para Norte e após alguns quilómetros começamos a sentir algo diferente. O enquadramento era o mesmo – pinhais, mas as subidas e descidas começaram a tornar-se estupidamente penosas, com um piso detiorado devido às intempéries e com facilidade nos obrigava a apear. Em determinada altura “desaguamos” na N2 no K160 antes da povoação de Almargem, por um trilho estreito, cavado e muito perigoso que quase nem a pé se conseguia andar.
Passada esta povoação, entramos numa espécie de terra de ninguém. Quilómetros e quilómetros sem ver uma “alma” nem uma aldeia. Para além de desolador e perigoso (se acontece algum acidente ou doença, quem nos acode?) ainda acrescia que o perfil era uma autêntica montanha russa, penalizada pelo mau estado dos caminhos pelos motivos já apontados.
E assim continuamos (ou penamos, como desejarem), até que encontramos a agradável vila de Mões, onde fomos compensados com uma excelente e farta refeição.
Já sabiamos o que nos esperava: a travessia do rio Paiva e a subida para a imponente serra de Bigorne e Montemuro, com altitudes a rondar os 1000m. Não sabíamos é que o percurso ultrapassava os limites do racional.
Um belo caminho para deslizar...
Começou logo por sairmos de Mões por caminhos de terra, atravessamos a N2, obrigando-nos a fazer uma subida bastante intensa e depois rodamos tuda à direita, voltamos a atravessar a N2 e entramos na estrada que leva a Mões (!). Pela primeira vez começamos a pensar: quem fez isto deve ter sido com o objectivo principal de gozar e castigar os peregrinos! Mal sabíamos que a missa ainda ía a metade.
Já a Norte do Paiva, depois de uma inevitável íngreme subida, passamos por cima dos túneis da auto-estrada e tudo indicava, como era evidente, que íamos passar no centro de Castro Daire. Mas não. As setas indicaram-nos para seguir por baixo das pontes da auto-estrada e lá fomos nós montanha acima a exclamar “ mas que diabo de percurso medieval que evitava as localidades principais!”
Apesar de a subida ser intensa para a serra de Bigorne, beneficiamos com o piso em alcatrão, sem no entanto o artífice do percurso deixar-nos de brindar com o seu espírito aventureiro, ao enviar-nos por carreiros estreitíssimos e umas escadas encaixadas entre muros altos (ver figura), que devem tornar-se verdadeiras cascatas e escorregas, caso calhe chover. Ver para crer!
A beleza do rio Paiva
Ao alcançarmos o Km 131 da N2 depois da aldeia de Corguinhas, pensei cá para os meus botões - “o pior já passou”. Nada mais errado. Quando nos metemos no caminho que levava a Moura Morta – Mezio – Bigorne, sentimos passar-nos da forma de peregrinos a mártires! Um caminho onde quase não se conseguia por os pés direitos, de bicicleta, em terreno plano não se conseguia andar a mais de 10 Km/h!
Aquilo que fez transbordar o nosso copo de água (o meu companheiro já tinha sugerido sairmos dali antes), foi quando num desses caminhos, já por si mau, as setas apontavam para um desvio onde se via uma cascata de rochas que tínhamos que ultrapassar. A partir daí rumamos para a estrada e amaldiçoamos o autor de tamanha incompetência e falta de bom senso.
Rumamos para estrada fartos de tanto esforço inútil, mas quando começamos a descer pela N2, vejo no meu GPS que afinal o percurso também era pela mesma estrada! Boa!
Já se fazia tarde e por isso decidimos não fazer caso dos desvaneios e estupidez do planeador. Rapidamente nos pusemos na Régua, onde pernoitamos.
No dia seguinte resolvemos dar uma nova oportunidade ao percurso, o qual rumou pela N1304 até entrar na N2, mas rapidamente nos apercebemos que a estupidez continuava em alta, ao enviar por variantes com descidas abruptas e subidas impossíveis, regressando depois à N2. Um verdadeiro suplício.
Bonito, mas pouco próprio
Passado Vila Real, continuava a montanha russa e as variantes castigadoras. A partir de Vila Pouca de Aguiar, deixamos de ligar ao percurso indicado e vimos uma agradável infra-estrutura que atravessa este concelho – a ciclovia, implantada na antiga linha ferroviária. Boa ideia! Pensamos nós, vamos por lá! Nó fomos, mas no GPS, via que o caminho de Santigo era bem mais tortuoso, paralelo à ciclovia. Depois de Vila Pouca, num determinado ponto indicava um desvio ao próprio percurso, obrigando mais uma vez a sair do buraco onde estávamos para subir para a estrada nacional. Porquê? Só Deus saberá!. Depois de Sabroso de Aguiar, na descida para Oura, o caminho é um verdadeiro suplício.
A beleza dos vinhedos da região demarcada do Douro
Já no concelho de Chaves, a coisa não melhorou. Em Valverde (Vidago) as setas não deixavam dúvidas. É mesmo para sofrer, e por isso toca a subir! Neste concelho já não existe a ciclovia com base na linha do comboio como em Vila Pouca, pois o Presidente limpou da memória uma das suas promessas eleitorais, mas existem decerto alternativas em terra muito mais suaves do que aquilo que está indicado. E não me venham com o antigo traçado medieval, pois os nossos ancestrais não eram tão burros como nos querem fazer crer, ao ponto de seguirem os percursos mais difíceis, ainda por cima, evitando as localidades.
Chegados a Chaves, não tinhamos dúvidas. Este percurso atravessava imensas paisagens deslumbrantes, mas era completamente intragável e desaconselhável em termos técnicos. E ainda tem o desplante de referir na página de internet - http://cpisantiago.com/ , que tem a vantagem do duplo sentido para os peregrinos se dirigirem a Fátima!. Só não dizem que de Chaves a Viseu são cerca de 192 Km, com 4700m de ascensão acumulada. Uma boa tareia!
O desvio ao percurso
Segundo a página atrás indicada, o caminho do interior foi um projecto conjunto dos municípios que o atravessa, cuja equipa de planeamento foi composta por funcionários dessas câmaras. E com isto está explicado o resultado final.
Um projecto que é, ou devia ser de elevado interesse nacional, põe assim em cheque uma valiosa possibilidade de desenvolvimento de uma extensa região do interior norte, por ser tratado com a “prata da casa” de uma forma quase irresponsável. Digo isto, porque considero que mataram este projecto à nasceça. Um peregrino que o faça, nunca mais há-de voltar e enquanto não se esquecer, vai espalhar à sua volta todo o seu desagrado e revolta. E é isto mesmo que eu estou aqui a fazer.
Nota-se que aqueles que delinearam e implantaram o trajecto pouco ou nada andam a pé e/ou de BTT. Provavelmente nunca fizeram um dos percursos dos caminhos de Santiago, e têm manifesta falta de idoniedade e de bom senso. Provavelmente nem sequer foram orientados sobre os objectivos a alcançar.
Os caminhos de Santiago não precisam de apresentação. São amplamente conhecidos em todo o mundo e só temos que aproveitar o seu bom nome para promover o turismo no nosso país. Por isso devemos na sua elaboração, ter em consideração os seguintes itens, por ordem decrescente de importância:
  • Orientar o trajecto tendo em conta o potencial económico que pode trazer o turismo da peregrinação para as regiões/localidades por onde passa, pelo que, deve passar pelas principais localidades, em especial aquelas que têm assinalável valor histórico, assim como possibilidades de fornecer alojamento e alimentação;
  • Instigar e orientar os proprietários das infraestruturas locais (restaurantes, cafés, alojamentos, museus, etc.), sobre aquilo que podem fazer no sentido de captar o turismo da peregrinação;
  • A segurança deve estar sempre presente, evitando traçados por regiões isoladas e em todo caso deve garantir-se que existe rede de telemóvel. Evitar locais que não permitam a acessibilidade em caso de resgate por doença/acidente, assim como áreas susceptíveis a intempéries ou desmoronamentos em caso de mudança súbita do tempo como é o caso de travessia de ribeiras e grandes taludes. Sempre que no traçado haja transito automóvel, deve existir sinalização que alerte os condutores sobre a presença de peregrinos e se possível, reserva uma via só para estes. Em cruzamentos de caminhos com vias principais de grande movimento automóvel, devem sinalizar aos peregrinos a sua aproximação.
  • O trajecto deve ser agradável no seu traçado, facilitando o deslocamento a pé ou de bicicleta. Nesses termos, deve ser o mais direto possível para o destino, evitando grandes declives, e caso seja inevitável contorná-los, os mesmos deve ser devidamente apropriados e mantidos. Os caminhos devem ser na sua generalidade com bom piso. Caso isso não se possa garantir, devem como alternativa (nem que seja provisória), ser por estrada.
  • Utilizar os antigos caminhos medievais, sem prejuízo dos pontos anteriores.
Ainda estamos a tempo para corrigir o mal feito. Estamos sempre a tempo, mas quanto mais tarde isso acontecer mais se espalha a má fama. Por isso os municípios devem rever todo o projecto, lançar novas orientações, nomeando para o efeito uma equipa credenciada na matéria para que altere o trajecto para a forma que faça juz ao bom nome dos caminhos de Santiago.

Bo caminho!

quinta-feira, 1 de março de 2012

À SOMBRA DA MENTIRA


  “Anda meio mundo a enganar outro meio” – é uma frase “pronta a servir” que já há muito conheço e que cada vez tem mais peso nos tempos que correm.

Dantes, com o que lia nos livros, jornais, revistas e via na televisão,, sentia-me mais ou menos seguro das elações que tirava dos mesmos, quanto à sua autenticidade. O jornalismo era relativamente sério (apesar de haver sempre um pouco de tudo em todo o lado), e notava-se por parte dos seus profissionais, um certo cuidado em procurar a verdade e relatá-la de forma isenta, clara precisa e concisa.
Com a democracia “Abrilesca de 74”, para além de deixar de existir a censura, cada um passou a dizer aquilo que muito bem entendia, sem qualquer pingo de vergonha, apostando fortemente no princípio de que “uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade”. Este método foi, e é, explorado até ao limite pelos nossos políticos.
Com a explosão dos meios de comunicação social, cada um deixou de estar no seu cantinho, passando de repente a ter o mundo a seus pés. O fluxo de informação multiplicou-se exponencialmente. Onde antes apenas sabíamos das desgraças locais e das nacionais de maior relevância, passamos a ver em todo o mundo e em directo aquilo que se passava.
A nossa adaptação foi tão rápida como a própria informatização e digitalização dos meios. Só que o acesso fácil, também trouxe a mentira fácil.
Às vezes, tão depressa aparece alguém a dar uma notícia, como aparece outrem a desmenti-la. Como é o caso dos mediáticos e eternos julgamentos como o da “Casa Pia”, onde a manipulação dos factos, é uma verdadeira especialidade dos profissionais da justiça e da comunicação. Se aparece um relato que um indivíduo é constituído arguido, rapidamente vem alguém a corrigir que é apenas testemunha; se um diz que o conhece, vem o outro dizer que nunca o viu, se um diz que o viu em tal lado, o outro diz que nunca lá esteve. Mesmo com o desfecho da sentença (se alguma vez acontecer), os condenados irão sempre gritar que estão inocentes. Nessa altura iremos duvidar da justiça e perguntar: será que o tribunal está a ser verdadeiro e íntegro?
Onde o pagode é maior, é no meio político, mais propriamente na Assembleia da República. Se um partido diz que determinada reforma é boa, outro partido diz que é má; se declaram que o défice está a baixar, vem outros dizer que está é a subir, pois os dados estão a ser manipulados. Porque é que na política, a verdade está sempre dividida ao meio?
Com a entrada da era digital, a confusão instalou-se definitivamente. Os filmes de ficção são feitos com uma perfeição tal que praticamente não se distingue o que é realidade. As fotos digitais são facilmente alteradas, sem que alguém se aperceba de que algo está errado.
Só o futebol passa incólume às evoluções tecnológicas. A sua utilização para tornar a decisão do árbitro mais clara e justa não interessa; preferem continuar com os jogos de manipulação nos bastidores e assim alimentar a polémica que enche tantas páginas dos jornais. O que seria do futebol sem a discussão e a controvérsia!
Perante tudo isto, tenho que concluir, um pouco desanimado, que a tecnologia da comunicação e imagem, só é utilizada no meio político e outras áreas afins (justiça, informação, futebol, etc.), para alimentar a mentira e a confusão. Se for para apurar a verdade, então preferem o tradicional e o grosseiro. Estamos num paraíso chamado Portugal! Mais nada!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

POLÍTICA – O CANCRO DA SOCIEDADE

(Cuidados com os ditadores e os criminosos!)
 

Não sei se já reparam que a maior parte dos grandes males que se passam neste país, convergem (ou tem origem) tudo no mesmo – na política.
Porque quem faz a política são pessoas, e que deviam, para além de cumprirem com zelo os seus deveres, serem um exemplo de comportamento moral e cívico, nada disso, muitos de deles cometem desde os mais hediondos crimes (corrupção, pedofilia, etc.) até às mais pequenas faltas, tudo em nome do povo, que votou neles.
Apesar de o nosso sistema político ser democrático, o processo é típico de uma ditadura - tiram proveito e dão a ganhar àqueles que estão em seu redor. Talvez seja por isso que até à data, apesar dos mega - processos que passam e já passaram em tribunal, ainda não vimos nenhum político ir parar à prisão com pena efectiva.
Viver numa democracia não quer dizer que não existam ditadores. O ser humano gosta de poder e de dominar o seu semelhante. Por isso eles, tal como os pedófilos, encontram-se na sombra à espera da melhor oportunidade para emergir e colocar em prática as suas pérfidas ideias.
O Zé Sócrates se tivesse governado em altura mais propícia (há mais de 4 décadas), já ninguém o tirava de lá mais. Tinha todas as características de um impiedoso e manipulador déspota, fazendo rolar cabeças a quem lhe fizesse frente. Não foi coincidência ter criado tamanha empatia (e muitos negócios) com o presidente Hugo Chávez.
No entanto, com o actual ambiente político na Europa é praticamente impossível um ditador conseguir impor-se contra os votos do povo, ou melhor, sem antes enganar o povo, que diga-se de passagem, é bem fácil de fazer.
São tão “bons” uns como os outros. No hemiciclo discutem violentamente, parecendo odiar-se, mas em privado parecem uma família coesa e amiga.
São também os políticos que, enquanto estão à espera de regressar à ribalta da política, ocupam cargos chorudamente remunerados. Lembram-se dos “jobs for de boys”? Pois é. É coisa antiga, mas que dura, dura... Há décadas que eles se revezam da política para os cargos nas empresas, e é assim que delapidam tudo por onde passam. Para descobrir basta levantar o véu. Mas não se preocupem que ninguém vai ser condenado, pois existem advogados de primeira linha para os defenderem, e mais não digo sobre a justiça em Portugal. Já sei que não são todos iguais, mas quem tem vergonha não faz da política uma profissão.
Sonho que um dia irá aparecer alguém que vai acabar com os oportunistas e com os grupos de interesses instalados, aos quais chamam partidos, e instituir um sistema de governação verdadeiramente justo e democrático.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A EUFORIA DA PASSAGEM DE ANO

Peço desculpa àqueles que não partilhem o meu sentimento, e que devem ser muitos, mas tenho a dificuldade de não conseguir nos momentos de euforia da passagem de ano, apurar um único pingo de alegria, principalmente quando estão a soar as doze badaladas.
Não é que seja um momento de tristeza, mas a passagem para um ano diferente não me dá qualquer satisfação especial. Já sei que esta ocorrência, tal como a de Natal e similares, é um pretexto para fazer uma festa e muitas outras coisas, mas muitas vezes cai-se no exagero de exagerar tudo. Exageramos a beber, exageramos a comer, exageramos a comprar, exageramos nos nossos sentimentos, exageramos na forma como tratamos os outros… e até no dia seguinte exageramos na ressaca… só não exageramos a trabalhar.
Lembro-me da passagem de ano que coincidiu com a passagem de século, de me interrogar: - se numa passagem de ano normal ficamos eufóricos, que é que devemos sentir numa passagem de século, para comemorar tão distinto acontecimento? Nada. Tudo o que se fez foi igualzinho aos anos anteriores, para além de se acrescentar verbalmente que, não só estávamos a passar de ano, mas também de século.
Os “não-alinhados” como eu, têm um bom remédio para passar o ano de uma forma alegre ou mesmo eufórica – beber uns copos, e a partir daí, é saltar de alegria no momento chave. Nestes termos, é natural já alguém me ter visto a transbordar de felicidade, o problema é que no dia seguinte andei com a garganta seca como uma cortiça e a cabeça pesada como uma pedra, facto que lamentei e jurei não repetir… até outra ocasião.
A passagem de ano já me deu grandes satisfações. Como por exemplo, quando deixar de fumar para o resto da vida, em 1983. Ajudou-me algumas vezes a consolidar amizades e conhecer pessoas novas. E também me ajudou a compreender que não se deve beber tudo de uma vez!
Imagino quantos ou quantas, entram no dia 31 sozinhos e saem no dia 1 com namorada (é o que se diz entrar de carrinho e sair de carrão)! Mas também o contrário pode acontecer e tornar-se uma data de grande pesar. Esses poderão consolar-se pensando que melhores passagens de ano virão!
Também há quem passe o ano na caminha a dormir, mas existem muitos mais que o fazem a trabalhar.
Resumindo, cada um de nós faz (ou tenta fazer) da passagem de ano aquilo que deseja que seja. Por isso uns deitam-se cedo como as galinhas e outros só se deitam quando muitos se levantam.
Esta passagem de ano não bebi, por isso a alegria não foi muita. Na próxima se calhar vou beber, mas sem álcool. Bem, com ainda tenho muito tempo ainda vou pensar até lá.
Bom ano 2012!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O NATAL DOS DEPRIMIDOS

     A mensagem é inequívoca: o Natal é época de paz e de felicidade, onde as famílias se reúnem em harmonia, demonstrando a sua amizade com a troca de prendas e comendo fartos repastos.
Tudo começa um mês antes com um ataque em massa do comércio a apelar ao consumo natalício. Ao fim de uns minutos no hipermercado, fico longo apático com aquelas músicas apaziguadoras e fraternas. Aproxima-se a data da grande festa e as televisões mostram nos noticiários, as pessoas atarefadas a fazerem as compras de última hora, e a mim a porem-me nervoso por ainda não ter comprado nada. Depois exibem espectáculos deprimentes como é o “Natal dos Hospitais”.
     A mim não se passa nada, porque não ligo a este tipo de festividades. Eu fico alegre ou triste, mais por intuição do que por estimulação, e por isso tenho a convicção que o Natal “dá mais trabalho do que vale”, semeando mais tristeza do que alegria.
Para muitos ficarem alegres ao receberem prendas, como é o caso das crianças, pois a ilusão da época é sobretudo para elas, muitos tem que fazer contas de cabeça e privações. Outros nem sequer recebem nada. Qual é a alegria de uma família que vê tanta fartura à sua volta e nada tem para dar aos seus?
Os carenciados, que nada tem que comer ou onde dormir, vale-lhes a caridade das instituições humanitárias, para comer um bocado de bacalhau e bolo-rei, mas no fundo devem sentir uma profunda melancolia, pois deve-lhes recordar momentos bem melhores do que aqueles que estão a viver.
Quem já perdeu os seus entes mais queridos, a recordação da sua companhia também não deve deixar-lhes muito espaço para alegrias. E quem está internado nos hospitais e nas prisões? E aqueles que tem familiares doentes no hospital? E aqueles que estão em lares? E aqueles que estão de serviço? Forças de segurança, médicos, enfermeiros, auxiliares, bombeiros, militares, etc.
Quem trabalha, faz as refeições, lava os pratos, põe e levanta a mesa, será que se sentem felizes com a época natalícia?
Os solteiros, viúvos, divorciados e todos aqueles que não tem família próxima, poucas razões têm para se sentirem alegres, pelo contrário, é uma época que custa a passar.
A época de Natal tornou-se um festejo socialmente doentio, em que tudo somado gera mais tristeza, frustração e depressão do que alegria.
Se o Natal dependesse de mim e pudesse ser cancelado por decreto, eu acabava com ele, pois tenho a convicção que existiriam mais pessoas a ficar aliviadas do que aquelas que ficariam tristes. O mesmo se aplica à estúpida festa de passagem de ano.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

GENTE DE VIDA FÁCIL

Dizem que a profissão mais antiga do mundo é a de prostituta, mas isso era segundo uma visão antiga e conservadora. Debaixo da perspectiva actual, posso afirmar que existia pelo menos uma profissão mais antiga, que é a de doméstica, pois foi exactamente devido ao mau desempenho das donas de casa (e afins) que os homens recorreram às prostitutas, ou seja, uma coisa levou à outra.
Também é às prostitutas que chamam “gente de vida fácil”, o que eu acho algo injusto. Primeiro, porque o meio onde a maior parte das prostitutas vivem é marginal (fora da lei), porco, agressivo, pressionado pela droga, pelo proxenetismo e claro, pelos maridos das senhoras bem comportadas. Segundo, porque existe muita mais gente que, essa sim, vive à custa daquilo que os outros produzem.
Ainda recentemente comprei uns pequenos utensílios em plástico por 10 cêntimos cada. Anteriormente tinha perguntado noutra loja o custo de tal produto e o mesmo custava 20 cêntimos - exactamente o dobro! Como provavelmente o vendedor onde comprei os objectos estaria a ter uma margem de 100%, o outro estava a ter uma margem de 300%! É a este tipo de gente a que chamo gente de vida fácil. São bem pior que as prostitutas. Quem produz os objectos lança-os ao mercado por meia dúzia de patacas e depois certos chicos-espertos aplicam nos seus negócios margens de lucro descomunais. É por isso que não tenho nada pena dessa coisa do comércio tradicional. Prestam um mau serviço e ainda por cima procuram retirar lucros exorbitantes. Não é prática ainda muito antiga muitos comerciantes codificarem o preço nas etiquetas, o que lhes permitia depois anunciarem o preço aos clientes, de acordo com a sua aparência.
Gente de vida fácil é coisa que não falta neste nosso pequeno mundo. Os políticos - quantos não vivem camuflados pela sua bela retórica, mas que não produzem rigorosamente nada?
A religião também alberga muita gente do género. Muitos não passam de bem falantes e alguns em vez de serem motivo de união da comunidade, ainda criam conflitos, muitas vezes motivados pela posse de bens materiais.
É por tudo isto que presto aqui uma justa homenagem a todos aqueles que criam e que produzem. Aos agricultores, aos pescadores, aos mineiros, aos operários, enfim, a todos os que têm uma vida difícil e em troco recebem uma ínfima parte daquilo que produzem e no final vêem os lucros do seu trabalho ir parar à mão da tal gente de vida fácil. Por isso quando utilizarem esta expressão, esqueçam as prostitutas, pois elas não são as piores.

sábado, 5 de novembro de 2011

DESPEDIDA DO MEU PAI


1950

Nesta derradeira despedida não posso, como filho, deixar de em breves palavras e em jeito de homenagem, dar a conhecer o meu pai. 
O João Maria  Pires da Silva nasceu em 09/05/1920 em Faiões, terra esta que sempre foi a sua. Foi numa altura de fome, de miséria e de agitação, fruto das turbulências da república e da 1ª Guerra Mundial.
Desta forma cresceu, mas mal deu para fazer a escola primária e cedo ficou sem o pai, aos 12 anos.
Isso deu-lhe responsabilidades acrescidas e em pouco tempo tomou as rédeas do sustento da casa materna, tornando-a ao longo dos anos cada vez mais próspera e produtiva, permitindo que os irmãos pudessem orientar as suas vidas. A título de curiosidade, o elevado rendimento da lavoura familiar permitiu em 1957, com uma só produção de batatas, comprar dois carros novos.
1973

Nesse mesmo ano deu uma viragem à sua vida ao casar-se com a minha mãe e daí resultamos  nós, os dois filhos.
Apesar de um casamento algo tardio em relação ao normal, nem por isso deixou de manter a sua luta no trabalho. Aos 60 anos ainda gozava de plena vitalidade e por isso continuava a trabalhar e a investir naquilo que melhor sabia fazer e que o apaixonava – a agricultura. Realço que desde jovem, tinha um especial encanto por um animal de grande porte e possante, símbolo de riqueza e de produtividade, que nos velhos tempos eram o grande motor da lavoura – os bois, e que ele adorava tratar para os ver gordos e com o pelo luzidio.
2005
E assim passou a sua vida. Uma vida simples, honrada e dedicada. Trabalhou de sol a sol, com o único sonho de ver bem a sua mulher e filhos. Entendeu ajudar-nos na hora certa, como ele dizia, “agora que precisais, porque depois quando morrermos já de pouco vale”. 
Não lhe deram a oportunidade de estudar, mas naquilo que fazia demonstrava grande inteligência e capacidade de discernimento. Era um mestre a contar histórias e anedotas malandras, coisa que nós, os filhos, parecemos não herdar.
2007

Talvez por ter tido uma infância dura, lhe ter sido roubada a juventude e celebrado um casamento tardio, tenha sido premiado com uma longa vida.
Tudo isto aconteceu não só devido à perseverança dele, mas também porque teve a seu lado uma mulher não menos valiosa, que esteve sempre à altura, dando amor à família e incutindo um forte espírito de união.
 Como se já tivesse terminado a sua missão neste mundo, decidiu agora deixar-nos.
É um momento duro. Duro e triste. No entanto sinto uma grande satisfação por saber que esta estrela subiu agora ao Céu, porque achou que era esta a sua hora.
Até sempre pai e paz à tua alma.
 
Faiões, 01 de Novembro de 2011