quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

CARTA SEM RETORNO


 Querida mãe,

Lamento muito o mal que estás a passar por causa do diabo da gripe. Tenho a certeza que vais melhorar, porque és uma pessoa forte e sabes que tens pessoas neste mundo que gostam muito de ti e querem muito que tu melhores.
Também lamento não poder estar aí a dar-te apoio, apesar de acompanhar diariamente o teu estado de saúde, mas também compreenderás que não somos donos do nosso destino e a vida tem que continuar. No entanto sei que estás a ser bem acompanhada. A Dra. M[…], a tua médica da Medicina2, (enfermaria onde estás internada) disse-me que estás a recuperar bem e também falei hoje com o Dr. M[…] C[…] que também está a acompanhar a tua situação, disse-me que estás a recuperar, lentamente sim, mas a recuperar. Ademais disse que logo que as tuas análises estejam favoráveis aproveita para fazer a medicação que costumavas fazer mensalmente. Por isso ainda não te deram alta.
Na residência geriátrica também estão a acompanhar a tua situação e sei que te visitam todos os dias. Tenho falado com a diretora, a Dra. J[…] e a enfermeira C[…] e tem-me contado como estás.
Também tenho falado com o […] e foi ele que me disse que a tia A[…] também já te foi visitar.
O tempo passa rápido. Já vai fazer quase um mês que estive aí. Na próxima semana, em princípio segunda, vou aí a C[…] para matar saudades, em especial de ti, a minha mãe, a mãe que amou sempre incondicionalmente os seus filhos e do qual estou profundamente reconhecido.
Espero que nessa altura já estejas completamente recuperada, mas se não estiveres não faz mal. Dou-te umas beijocas e verás como rapidamente te pões "guicha"! Entretanto aproveita para comer a sopinha daí do hospital de que tanto gostas!
Da minha parte por aqui está tudo a correr bem. Estou de boa saúde e isso já é mais que suficiente para andar tudo sobre rodas. Ah! A propósito de rodas estou agora a aprender a andar em patins. Nada demais, não é difícil. É só apanhar o jeito e praticar.
Estou a escrever-te porque mais uma vez a constipação te atacou a audição e por isso ficamos incomunicados.
Despeço-me assim com um até já, pois falta muito pouco tempo para aparecer por aí.

Um beijo grande e votos de boa recuperação,

do teu filho M[…] M[…]

11 de Fevereiro de 2015

domingo, 20 de dezembro de 2015

A ESCOLA NO MEU TEMPO

A escola no meu tempo, situa-se lá para o ano de 1976/77, ou seja, há cerca de 30 anos, quando andava no 2º ano do ciclo preparatório, que equivale agora ao vosso 6º ano de escolaridade.
Frequentei a Escola Preparatória Luís António Verney em Lisboa, mais propriamente no Bairro Madre de Deus, a qual tinha na altura, segundo a minha perspectiva, um aspecto moderno e funcional. Para além das salas de aula, tinha espaços adequados para as aulas de Música, Trabalhos Manuais e ainda um pavilhão gimnodesportivo para a Educação Física, com balneários para tomar banho. Nas suas imediações (fora da escola) existia um grande parque com árvores muito grandes e frondosas, onde nos refugiávamos, mais em especial na Primavera e no Verão, quando não havia aulas ou nos intervalos maiores. Aí, entretínhamo-nos a brincar, e por vezes mastigávamos umas ervas que tinham uma flor branca na sua extremidade, que davam um sumo ácido, a que chamávamos azedas. Um verdadeiro vício, que nos deixava a boca num estado lastimável, como quando comemos diospiros mal maduros.
A professora que nos dava Música era invisual, mas não deixou por isso de nos dar boas lições de música e belas lições de vida. Tenho a sensação que foi o ano em que aprendi mais música na minha vida.
Olhando para as disciplinas que existem actualmente (a que chamam agora de áreas curriculares), não noto grandes diferenças para além das designações, como as disciplinas de Trabalhos Manuais, Desenho, Música… Lembro-me de em determinada altura, termos umas sessões especiais de Educação Sexual, com a projecção de um filme, (deviam fazer parte de um projecto) que foram um sucesso entre a rapaziada. A verdade é que desde então esqueci-me de muita coisa, mas sobre essas sessões ainda era capaz de descrever algumas cenas! As classificações no ciclo preparatório (5º e 6º ano) eram quantificadas de 0 a 20 valores.
No ano a seguir fui para o Liceu Gil Vicente, também em Lisboa, onde frequentei o 7º, 8º e 9º ano de escolaridade – designação que ainda agora se mantém. Nesta escola o espaço era mais limitado, mas não deixava por isso de ter todas as condições.
À porta estava sempre uma senhora com um grande cesto de verga, cheia de bolos fresquinhos. Ao meio da manhã nunca falhava para ir comprar uma grande “bola de Berlim” cheia de creme – uma verdadeira delícia, que agora é banida pelos nutricionistas por ser uma das causas de obesidade da juventude (têm razão!).
Quanto a disciplinas, de pouco me lembro, para além de que foi o único ano da disciplina de inglês durante todo o meu ensino secundário (nos restantes anos tive Francês). A professora era muito rezingona e se demorávamos um pouco a pensar para responder às perguntas dela, punha-se a gritar toda histérica - “quikly, quikly!”.
No ano a seguir, no 9º ano, mais propriamente em 1979, o grupo musical Cheap Trick fazia furor com o seu grande sucesso “I want you, to want me” e foi o lançamento bombástico do álbum The Wall dos Pink Floyd. A canção “Another Brick in the Wall” era a preferida da malta, em especial quando as crianças gritavam em coro “We don’nt need education, we don’t need more control … ei teacher, live the kids allown!” – um verdadeiro hino para o pessoal!
Nesses anos, as classificações dos testes e das disciplinas eram quantificadas de 0 a 5 valores. No final do 9º ano tivemos exames que condicionavam a passagem de ano para o 10º. Um aluno que tivesse um 4 a uma disciplina, para passar de ano, tinha que ter um 2 no exame. Não é para me gabar, mas como tinha bastantes quatros, o processo não me enervou muito.
Nos 10º e 11º anos, a avaliação voltou a ser na escala de 0 a 20 valores. Já existiam as diversas áreas de letras e ciências Eu fui para a de ciências, mais propriamente para Metalomecânica, a que agora designam como curso Tecnológico.
No 12º ano reprovei num exame de final de época a uma disciplina (Física e Química) o que me obrigou a repetir o ano só por causa dessa cadeira. O melhor do episódio, foi que no ano seguinte esses exames que me fizeram marcar passo um ano, deixaram de existir. Chama-se a isto azar nítido.
Muito mais haveria para contar, não fosse a minha curta memória, mas analisando tudo o que se passou na minha vida de estudante, depreendo que fomos autenticas cobaias nas mãos de uma política instável, onde tiravam, punham e moviam como se de um jogo de xadrez se tratasse.
Como devem imaginar, na altura ainda estava fresca a revolução do 25 de Abril de 1974, pelo que se viviam momentos conturbados, onde tudo se queria mudar. Podemos tomar então isso como desculpa para todas as convulsões da reforma do ensino. Porém, passados 30 anos, continua tudo muito parecido ao que era no meu tempo, para além de convenientes alterações de designação.

O ensino ao longo de todos estes anos, faz lembrar um veleiro que anda à deriva e que muda de rumo conforme muda a direcção do vento (e muda o poder político). Por isso meus amiguinhos, vocês que estão no barco, sujeitos a encalhar, agarrem-se com força à única coisa que vos pode salvar – os vossos professores. São eles que vos dão os preciosos conhecimentos e com eles poderem vir a obter uma profissão que corresponda aos vossos anseios.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

DESPEDIDA DA MINHA MÃE


A morte é negra, dura e escura. A ela ninguém escapa... Mas eu hei-de escapar!... Sabem como? Compro uma panela, meto-me dentro dela, custa-me um vintém,  tapo-a muito bem, Nisto vem a morte e diz: aqui não há ninguém!!!
Era assim que a Maria Irene Teixeira Pires da Silva, nascida em 03/09/1922, recitava em tom de brincadeira, sem hesitações, inúmeras passagens de peças de teatro, que tinha aprendido quando jovem, na Escola.
Nasceu na então vila de Chaves, mas cedo foi viver com toda a sua família para Faiões, de onde tinham origem.
A década de 20 e 30 era de crise, com muita pobreza. Por ser a mais velha e a única rapariga de entre 4 irmãos sobrevivos (morreram 3), e porque era tradição, quase lhe foi imposto o destino das lides caseiras, mas graças à sua  mãe, acabou por ser poupada a tal desígnio.
Em vez disso, aos 12 anos mandaram-na estudar para o Colégio Teresiano em Braga. Aí, adquiriu uma sólida formação académica e religiosa, acabando por frequentar o Magistério Primário e assim ser professora do ensino primário.
Na altura a falta de professores era tão grande (a sua formação esteve encerrada durante vários anos e só abriu no ano em que concorreu - 1942) que mesmo antes de frequentar o magistério, a tão só aprovação no exame de admissão, permitiu-lhe leccionar durante 4 meses em Santa Cruz de Cimo de Vila da Castanheira, em regime provisório, até começar o Magistério.
No final de 1945 acabou o Magistério Primário em Braga e finalmente regressou à sua querida terra. No 1º ano de professora leccionou em Roriz e os 14 seguintes passou-os em Oucidres.
Em 1957, mais propriamente em 19 de Setembro, casou com João Maria Pires da Silva, constituindo-se assim um dos grandes momentos que marcaram a sua vida.
Em 1960 aproximou-se mais da sua terra natal, ao ser colocada em Vila Verde da Raia, onde esteve 3 anos e após este período foi para a escola de Faiões, onde permaneceu 22 anos, até que se reformou, em 1984.
Teve dois filhos, onde investiu toda a sua vida e todo o seu amor, cego e incondicional.
A sua vida foi longa e bem acompanhada pelo seu marido de sempre, no entanto, como todas as viagens têm o seu fim, também a dela chegou ao seu termo.
Já partiu, mas ficou a sua obra reconhecida: centenas de crianças, agora adultos, que receberam uma sólida formação e recordam com saudade o seu zelo e empenho, os seus filhos que viveram por entre a saudade e o amor de uma mãe dedicada, e sentem que tiveram o melhor daquilo que lhes podiam oferecer, e uma terra (Faiões) que foi o seu berço e da qual nunca se quis desprender.
Agora está junto Daquele com quem compartiu a sua incondicional fé e amor: Jesus Cristo, que a deve ter agora mesmo acolhida entre os seus braços.
Perante uma vida tão completa e bem realizada, devemos aqui, não despedir a morte, mas sim celebrar a vida, a qual a D. Irene percorreu com tanta vontade e alegria.
Bem haja mãe e descansa em paz.

Faiões, 23 de Fevereiro de 2015

sábado, 8 de setembro de 2012

CAMINHO PORTUGUÊS INTERIOR DE SANTIAGO - Morte à nascença


Podiam também chamar-lhe o caminho do sofrimento, o caminho da desgraça ou mesmo o caminho das almas perdidas.
Percorri de bicicleta há uns dias com um amigo, este recente inaugurado caminho e tendo já feito anteriormente dois percursos espanhóis, fiquei simplesmente decepcionado e indignado.
Resumidamente vou descrever alguns dos precalços neste trajecto.
Viseu, em frente à Sé
Tudo começa na povoação de Farminhão e começa bem. No Centro Social puseram-nos o primeiro carimbo na credencial do peregrino e lá fomos felizes e contentes, desde logo bem impressionados com os caminhos que atravessavam os bem delineados pinhais. Rapidamente as setas nos levaram ao centro de Viseu, o que nos sugeriu tomar o “mata-bicho” e ainda tirar umas fotos tendo como o pano de fundo, a Sé.
Lá continuamos para Norte e após alguns quilómetros começamos a sentir algo diferente. O enquadramento era o mesmo – pinhais, mas as subidas e descidas começaram a tornar-se estupidamente penosas, com um piso detiorado devido às intempéries e com facilidade nos obrigava a apear. Em determinada altura “desaguamos” na N2 no K160 antes da povoação de Almargem, por um trilho estreito, cavado e muito perigoso que quase nem a pé se conseguia andar.
Passada esta povoação, entramos numa espécie de terra de ninguém. Quilómetros e quilómetros sem ver uma “alma” nem uma aldeia. Para além de desolador e perigoso (se acontece algum acidente ou doença, quem nos acode?) ainda acrescia que o perfil era uma autêntica montanha russa, penalizada pelo mau estado dos caminhos pelos motivos já apontados.
E assim continuamos (ou penamos, como desejarem), até que encontramos a agradável vila de Mões, onde fomos compensados com uma excelente e farta refeição.
Já sabiamos o que nos esperava: a travessia do rio Paiva e a subida para a imponente serra de Bigorne e Montemuro, com altitudes a rondar os 1000m. Não sabíamos é que o percurso ultrapassava os limites do racional.
Um belo caminho para deslizar...
Começou logo por sairmos de Mões por caminhos de terra, atravessamos a N2, obrigando-nos a fazer uma subida bastante intensa e depois rodamos tuda à direita, voltamos a atravessar a N2 e entramos na estrada que leva a Mões (!). Pela primeira vez começamos a pensar: quem fez isto deve ter sido com o objectivo principal de gozar e castigar os peregrinos! Mal sabíamos que a missa ainda ía a metade.
Já a Norte do Paiva, depois de uma inevitável íngreme subida, passamos por cima dos túneis da auto-estrada e tudo indicava, como era evidente, que íamos passar no centro de Castro Daire. Mas não. As setas indicaram-nos para seguir por baixo das pontes da auto-estrada e lá fomos nós montanha acima a exclamar “ mas que diabo de percurso medieval que evitava as localidades principais!”
Apesar de a subida ser intensa para a serra de Bigorne, beneficiamos com o piso em alcatrão, sem no entanto o artífice do percurso deixar-nos de brindar com o seu espírito aventureiro, ao enviar-nos por carreiros estreitíssimos e umas escadas encaixadas entre muros altos (ver figura), que devem tornar-se verdadeiras cascatas e escorregas, caso calhe chover. Ver para crer!
A beleza do rio Paiva
Ao alcançarmos o Km 131 da N2 depois da aldeia de Corguinhas, pensei cá para os meus botões - “o pior já passou”. Nada mais errado. Quando nos metemos no caminho que levava a Moura Morta – Mezio – Bigorne, sentimos passar-nos da forma de peregrinos a mártires! Um caminho onde quase não se conseguia por os pés direitos, de bicicleta, em terreno plano não se conseguia andar a mais de 10 Km/h!
Aquilo que fez transbordar o nosso copo de água (o meu companheiro já tinha sugerido sairmos dali antes), foi quando num desses caminhos, já por si mau, as setas apontavam para um desvio onde se via uma cascata de rochas que tínhamos que ultrapassar. A partir daí rumamos para a estrada e amaldiçoamos o autor de tamanha incompetência e falta de bom senso.
Rumamos para estrada fartos de tanto esforço inútil, mas quando começamos a descer pela N2, vejo no meu GPS que afinal o percurso também era pela mesma estrada! Boa!
Já se fazia tarde e por isso decidimos não fazer caso dos desvaneios e estupidez do planeador. Rapidamente nos pusemos na Régua, onde pernoitamos.
No dia seguinte resolvemos dar uma nova oportunidade ao percurso, o qual rumou pela N1304 até entrar na N2, mas rapidamente nos apercebemos que a estupidez continuava em alta, ao enviar por variantes com descidas abruptas e subidas impossíveis, regressando depois à N2. Um verdadeiro suplício.
Bonito, mas pouco próprio
Passado Vila Real, continuava a montanha russa e as variantes castigadoras. A partir de Vila Pouca de Aguiar, deixamos de ligar ao percurso indicado e vimos uma agradável infra-estrutura que atravessa este concelho – a ciclovia, implantada na antiga linha ferroviária. Boa ideia! Pensamos nós, vamos por lá! Nó fomos, mas no GPS, via que o caminho de Santigo era bem mais tortuoso, paralelo à ciclovia. Depois de Vila Pouca, num determinado ponto indicava um desvio ao próprio percurso, obrigando mais uma vez a sair do buraco onde estávamos para subir para a estrada nacional. Porquê? Só Deus saberá!. Depois de Sabroso de Aguiar, na descida para Oura, o caminho é um verdadeiro suplício.
A beleza dos vinhedos da região demarcada do Douro
Já no concelho de Chaves, a coisa não melhorou. Em Valverde (Vidago) as setas não deixavam dúvidas. É mesmo para sofrer, e por isso toca a subir! Neste concelho já não existe a ciclovia com base na linha do comboio como em Vila Pouca, pois o Presidente limpou da memória uma das suas promessas eleitorais, mas existem decerto alternativas em terra muito mais suaves do que aquilo que está indicado. E não me venham com o antigo traçado medieval, pois os nossos ancestrais não eram tão burros como nos querem fazer crer, ao ponto de seguirem os percursos mais difíceis, ainda por cima, evitando as localidades.
Chegados a Chaves, não tinhamos dúvidas. Este percurso atravessava imensas paisagens deslumbrantes, mas era completamente intragável e desaconselhável em termos técnicos. E ainda tem o desplante de referir na página de internet - http://cpisantiago.com/ , que tem a vantagem do duplo sentido para os peregrinos se dirigirem a Fátima!. Só não dizem que de Chaves a Viseu são cerca de 192 Km, com 4700m de ascensão acumulada. Uma boa tareia!
O desvio ao percurso
Segundo a página atrás indicada, o caminho do interior foi um projecto conjunto dos municípios que o atravessa, cuja equipa de planeamento foi composta por funcionários dessas câmaras. E com isto está explicado o resultado final.
Um projecto que é, ou devia ser de elevado interesse nacional, põe assim em cheque uma valiosa possibilidade de desenvolvimento de uma extensa região do interior norte, por ser tratado com a “prata da casa” de uma forma quase irresponsável. Digo isto, porque considero que mataram este projecto à nasceça. Um peregrino que o faça, nunca mais há-de voltar e enquanto não se esquecer, vai espalhar à sua volta todo o seu desagrado e revolta. E é isto mesmo que eu estou aqui a fazer.
Nota-se que aqueles que delinearam e implantaram o trajecto pouco ou nada andam a pé e/ou de BTT. Provavelmente nunca fizeram um dos percursos dos caminhos de Santiago, e têm manifesta falta de idoniedade e de bom senso. Provavelmente nem sequer foram orientados sobre os objectivos a alcançar.
Os caminhos de Santiago não precisam de apresentação. São amplamente conhecidos em todo o mundo e só temos que aproveitar o seu bom nome para promover o turismo no nosso país. Por isso devemos na sua elaboração, ter em consideração os seguintes itens, por ordem decrescente de importância:
  • Orientar o trajecto tendo em conta o potencial económico que pode trazer o turismo da peregrinação para as regiões/localidades por onde passa, pelo que, deve passar pelas principais localidades, em especial aquelas que têm assinalável valor histórico, assim como possibilidades de fornecer alojamento e alimentação;
  • Instigar e orientar os proprietários das infraestruturas locais (restaurantes, cafés, alojamentos, museus, etc.), sobre aquilo que podem fazer no sentido de captar o turismo da peregrinação;
  • A segurança deve estar sempre presente, evitando traçados por regiões isoladas e em todo caso deve garantir-se que existe rede de telemóvel. Evitar locais que não permitam a acessibilidade em caso de resgate por doença/acidente, assim como áreas susceptíveis a intempéries ou desmoronamentos em caso de mudança súbita do tempo como é o caso de travessia de ribeiras e grandes taludes. Sempre que no traçado haja transito automóvel, deve existir sinalização que alerte os condutores sobre a presença de peregrinos e se possível, reserva uma via só para estes. Em cruzamentos de caminhos com vias principais de grande movimento automóvel, devem sinalizar aos peregrinos a sua aproximação.
  • O trajecto deve ser agradável no seu traçado, facilitando o deslocamento a pé ou de bicicleta. Nesses termos, deve ser o mais direto possível para o destino, evitando grandes declives, e caso seja inevitável contorná-los, os mesmos deve ser devidamente apropriados e mantidos. Os caminhos devem ser na sua generalidade com bom piso. Caso isso não se possa garantir, devem como alternativa (nem que seja provisória), ser por estrada.
  • Utilizar os antigos caminhos medievais, sem prejuízo dos pontos anteriores.
Ainda estamos a tempo para corrigir o mal feito. Estamos sempre a tempo, mas quanto mais tarde isso acontecer mais se espalha a má fama. Por isso os municípios devem rever todo o projecto, lançar novas orientações, nomeando para o efeito uma equipa credenciada na matéria para que altere o trajecto para a forma que faça juz ao bom nome dos caminhos de Santiago.

Bo caminho!

quinta-feira, 1 de março de 2012

À SOMBRA DA MENTIRA


  “Anda meio mundo a enganar outro meio” – é uma frase “pronta a servir” que já há muito conheço e que cada vez tem mais peso nos tempos que correm.

Dantes, com o que lia nos livros, jornais, revistas e via na televisão,, sentia-me mais ou menos seguro das elações que tirava dos mesmos, quanto à sua autenticidade. O jornalismo era relativamente sério (apesar de haver sempre um pouco de tudo em todo o lado), e notava-se por parte dos seus profissionais, um certo cuidado em procurar a verdade e relatá-la de forma isenta, clara precisa e concisa.
Com a democracia “Abrilesca de 74”, para além de deixar de existir a censura, cada um passou a dizer aquilo que muito bem entendia, sem qualquer pingo de vergonha, apostando fortemente no princípio de que “uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade”. Este método foi, e é, explorado até ao limite pelos nossos políticos.
Com a explosão dos meios de comunicação social, cada um deixou de estar no seu cantinho, passando de repente a ter o mundo a seus pés. O fluxo de informação multiplicou-se exponencialmente. Onde antes apenas sabíamos das desgraças locais e das nacionais de maior relevância, passamos a ver em todo o mundo e em directo aquilo que se passava.
A nossa adaptação foi tão rápida como a própria informatização e digitalização dos meios. Só que o acesso fácil, também trouxe a mentira fácil.
Às vezes, tão depressa aparece alguém a dar uma notícia, como aparece outrem a desmenti-la. Como é o caso dos mediáticos e eternos julgamentos como o da “Casa Pia”, onde a manipulação dos factos, é uma verdadeira especialidade dos profissionais da justiça e da comunicação. Se aparece um relato que um indivíduo é constituído arguido, rapidamente vem alguém a corrigir que é apenas testemunha; se um diz que o conhece, vem o outro dizer que nunca o viu, se um diz que o viu em tal lado, o outro diz que nunca lá esteve. Mesmo com o desfecho da sentença (se alguma vez acontecer), os condenados irão sempre gritar que estão inocentes. Nessa altura iremos duvidar da justiça e perguntar: será que o tribunal está a ser verdadeiro e íntegro?
Onde o pagode é maior, é no meio político, mais propriamente na Assembleia da República. Se um partido diz que determinada reforma é boa, outro partido diz que é má; se declaram que o défice está a baixar, vem outros dizer que está é a subir, pois os dados estão a ser manipulados. Porque é que na política, a verdade está sempre dividida ao meio?
Com a entrada da era digital, a confusão instalou-se definitivamente. Os filmes de ficção são feitos com uma perfeição tal que praticamente não se distingue o que é realidade. As fotos digitais são facilmente alteradas, sem que alguém se aperceba de que algo está errado.
Só o futebol passa incólume às evoluções tecnológicas. A sua utilização para tornar a decisão do árbitro mais clara e justa não interessa; preferem continuar com os jogos de manipulação nos bastidores e assim alimentar a polémica que enche tantas páginas dos jornais. O que seria do futebol sem a discussão e a controvérsia!
Perante tudo isto, tenho que concluir, um pouco desanimado, que a tecnologia da comunicação e imagem, só é utilizada no meio político e outras áreas afins (justiça, informação, futebol, etc.), para alimentar a mentira e a confusão. Se for para apurar a verdade, então preferem o tradicional e o grosseiro. Estamos num paraíso chamado Portugal! Mais nada!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

POLÍTICA – O CANCRO DA SOCIEDADE

(Cuidados com os ditadores e os criminosos!)
 

Não sei se já reparam que a maior parte dos grandes males que se passam neste país, convergem (ou tem origem) tudo no mesmo – na política.
Porque quem faz a política são pessoas, e que deviam, para além de cumprirem com zelo os seus deveres, serem um exemplo de comportamento moral e cívico, nada disso, muitos de deles cometem desde os mais hediondos crimes (corrupção, pedofilia, etc.) até às mais pequenas faltas, tudo em nome do povo, que votou neles.
Apesar de o nosso sistema político ser democrático, o processo é típico de uma ditadura - tiram proveito e dão a ganhar àqueles que estão em seu redor. Talvez seja por isso que até à data, apesar dos mega - processos que passam e já passaram em tribunal, ainda não vimos nenhum político ir parar à prisão com pena efectiva.
Viver numa democracia não quer dizer que não existam ditadores. O ser humano gosta de poder e de dominar o seu semelhante. Por isso eles, tal como os pedófilos, encontram-se na sombra à espera da melhor oportunidade para emergir e colocar em prática as suas pérfidas ideias.
O Zé Sócrates se tivesse governado em altura mais propícia (há mais de 4 décadas), já ninguém o tirava de lá mais. Tinha todas as características de um impiedoso e manipulador déspota, fazendo rolar cabeças a quem lhe fizesse frente. Não foi coincidência ter criado tamanha empatia (e muitos negócios) com o presidente Hugo Chávez.
No entanto, com o actual ambiente político na Europa é praticamente impossível um ditador conseguir impor-se contra os votos do povo, ou melhor, sem antes enganar o povo, que diga-se de passagem, é bem fácil de fazer.
São tão “bons” uns como os outros. No hemiciclo discutem violentamente, parecendo odiar-se, mas em privado parecem uma família coesa e amiga.
São também os políticos que, enquanto estão à espera de regressar à ribalta da política, ocupam cargos chorudamente remunerados. Lembram-se dos “jobs for de boys”? Pois é. É coisa antiga, mas que dura, dura... Há décadas que eles se revezam da política para os cargos nas empresas, e é assim que delapidam tudo por onde passam. Para descobrir basta levantar o véu. Mas não se preocupem que ninguém vai ser condenado, pois existem advogados de primeira linha para os defenderem, e mais não digo sobre a justiça em Portugal. Já sei que não são todos iguais, mas quem tem vergonha não faz da política uma profissão.
Sonho que um dia irá aparecer alguém que vai acabar com os oportunistas e com os grupos de interesses instalados, aos quais chamam partidos, e instituir um sistema de governação verdadeiramente justo e democrático.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A EUFORIA DA PASSAGEM DE ANO

Peço desculpa àqueles que não partilhem o meu sentimento, e que devem ser muitos, mas tenho a dificuldade de não conseguir nos momentos de euforia da passagem de ano, apurar um único pingo de alegria, principalmente quando estão a soar as doze badaladas.
Não é que seja um momento de tristeza, mas a passagem para um ano diferente não me dá qualquer satisfação especial. Já sei que esta ocorrência, tal como a de Natal e similares, é um pretexto para fazer uma festa e muitas outras coisas, mas muitas vezes cai-se no exagero de exagerar tudo. Exageramos a beber, exageramos a comer, exageramos a comprar, exageramos nos nossos sentimentos, exageramos na forma como tratamos os outros… e até no dia seguinte exageramos na ressaca… só não exageramos a trabalhar.
Lembro-me da passagem de ano que coincidiu com a passagem de século, de me interrogar: - se numa passagem de ano normal ficamos eufóricos, que é que devemos sentir numa passagem de século, para comemorar tão distinto acontecimento? Nada. Tudo o que se fez foi igualzinho aos anos anteriores, para além de se acrescentar verbalmente que, não só estávamos a passar de ano, mas também de século.
Os “não-alinhados” como eu, têm um bom remédio para passar o ano de uma forma alegre ou mesmo eufórica – beber uns copos, e a partir daí, é saltar de alegria no momento chave. Nestes termos, é natural já alguém me ter visto a transbordar de felicidade, o problema é que no dia seguinte andei com a garganta seca como uma cortiça e a cabeça pesada como uma pedra, facto que lamentei e jurei não repetir… até outra ocasião.
A passagem de ano já me deu grandes satisfações. Como por exemplo, quando deixar de fumar para o resto da vida, em 1983. Ajudou-me algumas vezes a consolidar amizades e conhecer pessoas novas. E também me ajudou a compreender que não se deve beber tudo de uma vez!
Imagino quantos ou quantas, entram no dia 31 sozinhos e saem no dia 1 com namorada (é o que se diz entrar de carrinho e sair de carrão)! Mas também o contrário pode acontecer e tornar-se uma data de grande pesar. Esses poderão consolar-se pensando que melhores passagens de ano virão!
Também há quem passe o ano na caminha a dormir, mas existem muitos mais que o fazem a trabalhar.
Resumindo, cada um de nós faz (ou tenta fazer) da passagem de ano aquilo que deseja que seja. Por isso uns deitam-se cedo como as galinhas e outros só se deitam quando muitos se levantam.
Esta passagem de ano não bebi, por isso a alegria não foi muita. Na próxima se calhar vou beber, mas sem álcool. Bem, com ainda tenho muito tempo ainda vou pensar até lá.
Bom ano 2012!