sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

POLÍTICA – O CANCRO DA SOCIEDADE

(Cuidados com os ditadores e os criminosos!)
 

Não sei se já reparam que a maior parte dos grandes males que se passam neste país, convergem (ou tem origem) tudo no mesmo – na política.
Porque quem faz a política são pessoas, e que deviam, para além de cumprirem com zelo os seus deveres, serem um exemplo de comportamento moral e cívico, nada disso, muitos de deles cometem desde os mais hediondos crimes (corrupção, pedofilia, etc.) até às mais pequenas faltas, tudo em nome do povo, que votou neles.
Apesar de o nosso sistema político ser democrático, o processo é típico de uma ditadura - tiram proveito e dão a ganhar àqueles que estão em seu redor. Talvez seja por isso que até à data, apesar dos mega - processos que passam e já passaram em tribunal, ainda não vimos nenhum político ir parar à prisão com pena efectiva.
Viver numa democracia não quer dizer que não existam ditadores. O ser humano gosta de poder e de dominar o seu semelhante. Por isso eles, tal como os pedófilos, encontram-se na sombra à espera da melhor oportunidade para emergir e colocar em prática as suas pérfidas ideias.
O Zé Sócrates se tivesse governado em altura mais propícia (há mais de 4 décadas), já ninguém o tirava de lá mais. Tinha todas as características de um impiedoso e manipulador déspota, fazendo rolar cabeças a quem lhe fizesse frente. Não foi coincidência ter criado tamanha empatia (e muitos negócios) com o presidente Hugo Chávez.
No entanto, com o actual ambiente político na Europa é praticamente impossível um ditador conseguir impor-se contra os votos do povo, ou melhor, sem antes enganar o povo, que diga-se de passagem, é bem fácil de fazer.
São tão “bons” uns como os outros. No hemiciclo discutem violentamente, parecendo odiar-se, mas em privado parecem uma família coesa e amiga.
São também os políticos que, enquanto estão à espera de regressar à ribalta da política, ocupam cargos chorudamente remunerados. Lembram-se dos “jobs for de boys”? Pois é. É coisa antiga, mas que dura, dura... Há décadas que eles se revezam da política para os cargos nas empresas, e é assim que delapidam tudo por onde passam. Para descobrir basta levantar o véu. Mas não se preocupem que ninguém vai ser condenado, pois existem advogados de primeira linha para os defenderem, e mais não digo sobre a justiça em Portugal. Já sei que não são todos iguais, mas quem tem vergonha não faz da política uma profissão.
Sonho que um dia irá aparecer alguém que vai acabar com os oportunistas e com os grupos de interesses instalados, aos quais chamam partidos, e instituir um sistema de governação verdadeiramente justo e democrático.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A EUFORIA DA PASSAGEM DE ANO

Peço desculpa àqueles que não partilhem o meu sentimento, e que devem ser muitos, mas tenho a dificuldade de não conseguir nos momentos de euforia da passagem de ano, apurar um único pingo de alegria, principalmente quando estão a soar as doze badaladas.
Não é que seja um momento de tristeza, mas a passagem para um ano diferente não me dá qualquer satisfação especial. Já sei que esta ocorrência, tal como a de Natal e similares, é um pretexto para fazer uma festa e muitas outras coisas, mas muitas vezes cai-se no exagero de exagerar tudo. Exageramos a beber, exageramos a comer, exageramos a comprar, exageramos nos nossos sentimentos, exageramos na forma como tratamos os outros… e até no dia seguinte exageramos na ressaca… só não exageramos a trabalhar.
Lembro-me da passagem de ano que coincidiu com a passagem de século, de me interrogar: - se numa passagem de ano normal ficamos eufóricos, que é que devemos sentir numa passagem de século, para comemorar tão distinto acontecimento? Nada. Tudo o que se fez foi igualzinho aos anos anteriores, para além de se acrescentar verbalmente que, não só estávamos a passar de ano, mas também de século.
Os “não-alinhados” como eu, têm um bom remédio para passar o ano de uma forma alegre ou mesmo eufórica – beber uns copos, e a partir daí, é saltar de alegria no momento chave. Nestes termos, é natural já alguém me ter visto a transbordar de felicidade, o problema é que no dia seguinte andei com a garganta seca como uma cortiça e a cabeça pesada como uma pedra, facto que lamentei e jurei não repetir… até outra ocasião.
A passagem de ano já me deu grandes satisfações. Como por exemplo, quando deixar de fumar para o resto da vida, em 1983. Ajudou-me algumas vezes a consolidar amizades e conhecer pessoas novas. E também me ajudou a compreender que não se deve beber tudo de uma vez!
Imagino quantos ou quantas, entram no dia 31 sozinhos e saem no dia 1 com namorada (é o que se diz entrar de carrinho e sair de carrão)! Mas também o contrário pode acontecer e tornar-se uma data de grande pesar. Esses poderão consolar-se pensando que melhores passagens de ano virão!
Também há quem passe o ano na caminha a dormir, mas existem muitos mais que o fazem a trabalhar.
Resumindo, cada um de nós faz (ou tenta fazer) da passagem de ano aquilo que deseja que seja. Por isso uns deitam-se cedo como as galinhas e outros só se deitam quando muitos se levantam.
Esta passagem de ano não bebi, por isso a alegria não foi muita. Na próxima se calhar vou beber, mas sem álcool. Bem, com ainda tenho muito tempo ainda vou pensar até lá.
Bom ano 2012!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O NATAL DOS DEPRIMIDOS

     A mensagem é inequívoca: o Natal é época de paz e de felicidade, onde as famílias se reúnem em harmonia, demonstrando a sua amizade com a troca de prendas e comendo fartos repastos.
Tudo começa um mês antes com um ataque em massa do comércio a apelar ao consumo natalício. Ao fim de uns minutos no hipermercado, fico longo apático com aquelas músicas apaziguadoras e fraternas. Aproxima-se a data da grande festa e as televisões mostram nos noticiários, as pessoas atarefadas a fazerem as compras de última hora, e a mim a porem-me nervoso por ainda não ter comprado nada. Depois exibem espectáculos deprimentes como é o “Natal dos Hospitais”.
     A mim não se passa nada, porque não ligo a este tipo de festividades. Eu fico alegre ou triste, mais por intuição do que por estimulação, e por isso tenho a convicção que o Natal “dá mais trabalho do que vale”, semeando mais tristeza do que alegria.
Para muitos ficarem alegres ao receberem prendas, como é o caso das crianças, pois a ilusão da época é sobretudo para elas, muitos tem que fazer contas de cabeça e privações. Outros nem sequer recebem nada. Qual é a alegria de uma família que vê tanta fartura à sua volta e nada tem para dar aos seus?
Os carenciados, que nada tem que comer ou onde dormir, vale-lhes a caridade das instituições humanitárias, para comer um bocado de bacalhau e bolo-rei, mas no fundo devem sentir uma profunda melancolia, pois deve-lhes recordar momentos bem melhores do que aqueles que estão a viver.
Quem já perdeu os seus entes mais queridos, a recordação da sua companhia também não deve deixar-lhes muito espaço para alegrias. E quem está internado nos hospitais e nas prisões? E aqueles que tem familiares doentes no hospital? E aqueles que estão em lares? E aqueles que estão de serviço? Forças de segurança, médicos, enfermeiros, auxiliares, bombeiros, militares, etc.
Quem trabalha, faz as refeições, lava os pratos, põe e levanta a mesa, será que se sentem felizes com a época natalícia?
Os solteiros, viúvos, divorciados e todos aqueles que não tem família próxima, poucas razões têm para se sentirem alegres, pelo contrário, é uma época que custa a passar.
A época de Natal tornou-se um festejo socialmente doentio, em que tudo somado gera mais tristeza, frustração e depressão do que alegria.
Se o Natal dependesse de mim e pudesse ser cancelado por decreto, eu acabava com ele, pois tenho a convicção que existiriam mais pessoas a ficar aliviadas do que aquelas que ficariam tristes. O mesmo se aplica à estúpida festa de passagem de ano.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

GENTE DE VIDA FÁCIL

Dizem que a profissão mais antiga do mundo é a de prostituta, mas isso era segundo uma visão antiga e conservadora. Debaixo da perspectiva actual, posso afirmar que existia pelo menos uma profissão mais antiga, que é a de doméstica, pois foi exactamente devido ao mau desempenho das donas de casa (e afins) que os homens recorreram às prostitutas, ou seja, uma coisa levou à outra.
Também é às prostitutas que chamam “gente de vida fácil”, o que eu acho algo injusto. Primeiro, porque o meio onde a maior parte das prostitutas vivem é marginal (fora da lei), porco, agressivo, pressionado pela droga, pelo proxenetismo e claro, pelos maridos das senhoras bem comportadas. Segundo, porque existe muita mais gente que, essa sim, vive à custa daquilo que os outros produzem.
Ainda recentemente comprei uns pequenos utensílios em plástico por 10 cêntimos cada. Anteriormente tinha perguntado noutra loja o custo de tal produto e o mesmo custava 20 cêntimos - exactamente o dobro! Como provavelmente o vendedor onde comprei os objectos estaria a ter uma margem de 100%, o outro estava a ter uma margem de 300%! É a este tipo de gente a que chamo gente de vida fácil. São bem pior que as prostitutas. Quem produz os objectos lança-os ao mercado por meia dúzia de patacas e depois certos chicos-espertos aplicam nos seus negócios margens de lucro descomunais. É por isso que não tenho nada pena dessa coisa do comércio tradicional. Prestam um mau serviço e ainda por cima procuram retirar lucros exorbitantes. Não é prática ainda muito antiga muitos comerciantes codificarem o preço nas etiquetas, o que lhes permitia depois anunciarem o preço aos clientes, de acordo com a sua aparência.
Gente de vida fácil é coisa que não falta neste nosso pequeno mundo. Os políticos - quantos não vivem camuflados pela sua bela retórica, mas que não produzem rigorosamente nada?
A religião também alberga muita gente do género. Muitos não passam de bem falantes e alguns em vez de serem motivo de união da comunidade, ainda criam conflitos, muitas vezes motivados pela posse de bens materiais.
É por tudo isto que presto aqui uma justa homenagem a todos aqueles que criam e que produzem. Aos agricultores, aos pescadores, aos mineiros, aos operários, enfim, a todos os que têm uma vida difícil e em troco recebem uma ínfima parte daquilo que produzem e no final vêem os lucros do seu trabalho ir parar à mão da tal gente de vida fácil. Por isso quando utilizarem esta expressão, esqueçam as prostitutas, pois elas não são as piores.

sábado, 5 de novembro de 2011

DESPEDIDA DO MEU PAI


1950

Nesta derradeira despedida não posso, como filho, deixar de em breves palavras e em jeito de homenagem, dar a conhecer o meu pai. 
O João Maria  Pires da Silva nasceu em 09/05/1920 em Faiões, terra esta que sempre foi a sua. Foi numa altura de fome, de miséria e de agitação, fruto das turbulências da república e da 1ª Guerra Mundial.
Desta forma cresceu, mas mal deu para fazer a escola primária e cedo ficou sem o pai, aos 12 anos.
Isso deu-lhe responsabilidades acrescidas e em pouco tempo tomou as rédeas do sustento da casa materna, tornando-a ao longo dos anos cada vez mais próspera e produtiva, permitindo que os irmãos pudessem orientar as suas vidas. A título de curiosidade, o elevado rendimento da lavoura familiar permitiu em 1957, com uma só produção de batatas, comprar dois carros novos.
1973

Nesse mesmo ano deu uma viragem à sua vida ao casar-se com a minha mãe e daí resultamos  nós, os dois filhos.
Apesar de um casamento algo tardio em relação ao normal, nem por isso deixou de manter a sua luta no trabalho. Aos 60 anos ainda gozava de plena vitalidade e por isso continuava a trabalhar e a investir naquilo que melhor sabia fazer e que o apaixonava – a agricultura. Realço que desde jovem, tinha um especial encanto por um animal de grande porte e possante, símbolo de riqueza e de produtividade, que nos velhos tempos eram o grande motor da lavoura – os bois, e que ele adorava tratar para os ver gordos e com o pelo luzidio.
2005
E assim passou a sua vida. Uma vida simples, honrada e dedicada. Trabalhou de sol a sol, com o único sonho de ver bem a sua mulher e filhos. Entendeu ajudar-nos na hora certa, como ele dizia, “agora que precisais, porque depois quando morrermos já de pouco vale”. 
Não lhe deram a oportunidade de estudar, mas naquilo que fazia demonstrava grande inteligência e capacidade de discernimento. Era um mestre a contar histórias e anedotas malandras, coisa que nós, os filhos, parecemos não herdar.
2007

Talvez por ter tido uma infância dura, lhe ter sido roubada a juventude e celebrado um casamento tardio, tenha sido premiado com uma longa vida.
Tudo isto aconteceu não só devido à perseverança dele, mas também porque teve a seu lado uma mulher não menos valiosa, que esteve sempre à altura, dando amor à família e incutindo um forte espírito de união.
 Como se já tivesse terminado a sua missão neste mundo, decidiu agora deixar-nos.
É um momento duro. Duro e triste. No entanto sinto uma grande satisfação por saber que esta estrela subiu agora ao Céu, porque achou que era esta a sua hora.
Até sempre pai e paz à tua alma.
 
Faiões, 01 de Novembro de 2011

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A REVOLTA JÁ COMEÇOU


A revolta já começou há muito, muito tempo. Uma revolta lenta, silenciosa e passiva.
Vemos - a em todo o lado, mas não damos conta, nem queremos saber que existe.
Alguém já se perguntou porque é que, apesar de terem gasto milhões de euros durante anos a fio, em campanhas contra a sida (uso do preservativo), prevenção rodoviária, para mudar hábitos perniciosos para a saúde, como é o tabaco, contra a violência doméstica, separar o lixo, etc., etc., os resultados são normalmente decepcionantes?
Para quem sobrevive parte da vida com as privações de um ordenado mínimo ou de uma pensão miserável, muitas vezes partilhado, com várias pessoas numa casa diminuta, os princípios e as campanhas esbatem-se. Não há tempo nem disposição para ouvir mensagens de sensibilização e ainda menos para participar nelas. O importante é sobreviver às dificuldades que, sem dinheiro, não se conseguem superar.
A pobreza trás privações, e por inerência a saúde fica frágil, restando pouca vontade para reagir. Não há disposição para olhar para coisas bonitas e fazer boas acções. A auto-estima perde-se e cresce um sentimento de revolta contra todos aqueles que estão bem melhor e que da sua pobreza nada querem saber.
Daqueles que nascem e crescem neste ambiente, a maior parte não consegue de lá sair. Sucumbem e afundam-se. A miséria é muito mais do que a falta de recursos materiais e financeiros. É o infortúnio de ser pobre, que lhes tira a vontade de viver e progredir.
Fumar faz mal? Por o preservativo nas relações sexuais? Ir votar? Separar o lixo? São tudo perguntas que não merecem a mínima atenção por cerca de 50% da população portuguesa que vive no limiar da pobreza.
Tudo isto ajuda a perceber porque é que existe a criminalidade e a prostituição. Não é só por preguiça de trabalhar e a cobiça de ganhar dinheiro fácil. O que está por trás é um emaranhado de traumas e sentimentos profundos, que levam a desdenhar da sua própria vida e muitas vezes tomar atitudes contra os outros.
A política no mundo inteiro, seja qual for a ideologia, demonstrou ser incapaz de inverter a injustiça social. Bem pelo contrário, tem deixado aumentar cada vez mais o fosso entre os ricos e os pobres e tem-se deixado levar pelo capitalismo desenfreado.
A revolta dos mais desfavorecidos está viva e latente e vai primeiro contra eles próprios. A grande incógnita é, quando é que eles deixam de suportar a diferença abismal que existe entre pobres e ricos. Se não se atenuar a situação, arriscamo-nos no futuro, a assistir (e sofrer) actos constantes de revolta, vandalismo, assaltos, raptos, manifestações, etc..
Que não seja por falta de avisos. Até o ex-presidente da República Mário Soares, que não serve de exemplo para ninguém quanto a actos e omissões, cuja conduta na sua candidatura à presidência da República, e no apoio ao seu filho João Soares nas eleições da Câmara de Lisboa, já denotava alguma senilidade (para não lhe chamar outra coisa), veio dizer ainda há pouco tempo, a propósito das manifestações na Grécia, que corremos o risco de uma revolta a larga escala.
A linha que separa a serenidade da revolta é cada vez mais ténue. Podemos comparar esta situação com a que se vive no equilíbrio ambiental da Terra. Veremos qual vai ser a primeira a explodir.
Nota: Este artigo foi escrito por mim em 29/01/2009. Passados dois anos e 9 meses, não estamos mais próximos da explosão?

terça-feira, 13 de setembro de 2011

ENSAIO DO NISSAN LEAF - Vale a pena comprar um carro eléctrico?


 Isto dos carros eléctricos anda-me a dar a volta “à telha”! E porquê? Porque a expectativa é tão grande como o atraso com que se apresenta.
Nissan Leaf novo, para venda
Nos anos 70, alguns visionários previam que nesta altura já nos deslocássemos em cómodas e velozes aeronaves propulsadas a qualquer coisa que não fosse gasolina. Na realidade continuamos com o velhinho e barulhento motor de combustão interna (se não concordas, faz favor de lhe tirar o escape e já confirmas) e só não digo obsoleto, porque ainda não se apresentou nada com força para o substituir. Digo com força, porque alternativas não faltam, só que os lobbies do petróleo são tão fortes como o aço de uma cambota.
O motor de combustão, depois de mais de um século de bons e leais serviços, continua muito igual ao primeiro que apareceu e por outro lado já demonstrou que pouco mais tem para evoluir. Note-se que nos últimos anos, todo o aperfeiçoamento tecnológico a que temos assistido deve-se essencialmente à aplicação da gestão electrónica no motor e periféricos (injecção electrónica, ABS, controle de tracção e de estabilidade, etc.). Todo o resto, tem sido como a moda na roupa – reeditam velhas descobertas como é o turbo, a injecção directa, etc., e aperfeiçoam-no. Na alta competição como é a F1, resolveram tirar (pequena) parte da electrónica com a finalidade de lhe devolver aquilo que era antes, ou seja, mais rudimentar e mais competitiva.
Com os ecologistas a picarem-nos a mona durante décadas a fio, e as sucessivas crises (económicas e não só) a ditarem a subida em flecha do “pitróleo”, agora parece que é de vez, as grandes marcas decidiram involucrar-se nesta coisa dos carros eléctricos.
O patinho feio - Peugeot ion
A Nissan foi a que se decidiu primeiro avançar, e o Leaf foi de imediato premiado com a distinção de “carro do ano europeu 2011”. A Peugeot (i-on), Citroen (c-zero) e Mitsubishi (i-miev) também lançaram em conjunto uma coisa parecida a um carro, mas só de o ver dá logo vontade de voltar à combustão interna. São tão feios, caros e ineficientes, que ninguém fala deles, é como se não existissem. Foram mesmo infelizes.
Para fazer o ensaio ao carro tive que me sujeitar a ir ao Porto, tendo que pedir através da Nissan Portugal. Isto porque muito poucos concessionários no país arriscaram ter um tipo de veículo desconhecido e caro (imagina no séc. XIX o grosso das vendas serem carruagens puxadas a cavalo e aparecer nessa altura um novo produto propulsado a vapor).
O preço é o primeiro choque, pese embora o Estado dizer que reembolsa 5000€. Por isso aponto aquela que considero a primeira grande desvantagem do Nissan Leaf: o preço - 38.000,00€!
O vendedor, muito simpático, nem parecia que queria vender um carro, de tão céptico que estava. Talvez me tenha lido nos olhos que não tinha a mínima intenção de o comprar.
O carro testado
A 1ª surpresa foi o compartimento do motor. Eu, que estava à espera de ver lá um grande espaço vazio, surpresa, afinal tem lá um bloco que parece mesmo um motor de combustão. Pois é, isto de ser eléctrico não é tão simples como queriam fazer crer. Para fazer o que os outros fazem, os motores eléctricos têm que ter refrigeração, radiadores para o ar condicionado, óleo dos travões, direcção assistida, etc. etc.. Depois temos as baterias (normalmente de iões de lítio) que também tem que ser refrigeradas. Com tudo isto somado, constatamos a segunda grande desvantagem: o peso. Tendo mais 400 Kg que um carro convencional do mesmo segmento, equivale a este último estar carregado com 4 passageiros (médios) e respectiva bagagem.
A mala é cerca de 25% mais pequena que o normal (330m3), não sendo uma diminuição substancial.
O interior é agradável e o quadro de instrumentos tem um aspecto “high tech”. Inclui de série o normalmente caro GPS, isto, para permitir ao sistema de gestão de energia, calcular e dizer-nos com mais precisão a distância até onde poderemos deslocar-nos.
Ligar o Leaf é como ligar uma televisão, tendo como condição de segurança carregar no travão. Selecciona-se num pequeno comutador se queremos ir para a frente ou para trás, e pronto, é só acelerar e travar. Em andamento, é extremamente confortável e silencioso, marcando aqui a grande diferença positiva para os convencionais.
O carro mesmo em modo económico tem uma grande capacidade de aceleração, no entanto quem sabe da limitada autonomia, decerto poucas vezes se deve dar ao gosto de o utilizar de forma desportiva. Dizem ter uma autonomia de 160 Km, mas li num teste que, conduzindo o mesmo sem limites, a autonomia não vai além dos 70 Km, e mesmo numa utilização normal, pouco mais faz do que 120 Km. E com isto constatamos a terceira grande desvantagem: a limitada autonomia.
Um interior muito tecnológico
Voltando às baterias, as mesmas utilizam a tecnologia de iões de lítio laminadas. Conforme já referi, conferem um maior peso ao carro, mas o pior é que, apesar de não terem efeito de memória na carga, as mesmas tem uma duração limitada, que se traduz em número de ciclos. Claro que a marca não quer falar nem ouvir falar disso, ainda por cima porque, ao declarar uma duração média de 10 anos, dá para as mesmas uma escassa garantia de 5 anos (!) num produto acabadinho de sair. Isto é que é cativar a confiança do cliente!
Não posso falar muito sobre a questão do número de ciclos de duração das baterias, porque não consegui dados concretos. Parece segredo de estado! O facto é que elas tem uma duração limitada. Hipoteticamente, se durassem 2.000 ciclos e fossem carregadas todos os dias, davam para cerca de 5 anos. Muito curto, mas se dessem para 6.000 ciclos, dariam para 15 anos, um valor já muito aceitável. Por não saber ao certo quanto duram tenho que apontar este facto como a quarta grande desvantagem, pois ao preço que dizem que custam as mesmas (de 10.000 a 23.000€!) comprar este carro é mesmo um negócio arriscado, e ainda mais se a garantia do fabricante for de 5 anos!
Até agora nem pensava em manutenção, pois o que se falava é que era quase nula. Porém na página da Peugeot, relativamente ao seu patinho feio “i-on”, dão como grande vantagem obter uma poupança de 20% em relação aos convencionais.
Vinte por cento! Que lata. Então num carro de motor de combustão as intervenções de manutenção ordinárias, recaem essencialmente sobre o motor, ou seja, mudanças de óleo, respectivos filtros, filtros de ar, velas, etc., e as manutenções maiores recaem sobre afinação de válvulas, correia de distribuição, óleo da caixa de velocidades, etc., tudo ou quase tudo são no motor.
O apêndice aerodinâmico traseiro é acessório pago
Sendo um motor eléctrico muitíssimo mais simples do que um motor de combustão, como é que se poupa apenas 20%? Provavelmente estamos a ajudar pagar a amortização do novo equipamento de diagnóstico e manutenção, mas não é por saber isso que vou ficar satisfeito por uma vantagem se transformar em desvantagem, que no seguimento deste texto, será a quinta grande desvantagem.
Tendo em conta a proveniência da energia eléctrica (barragens, eólica e térmica), dizem que um carro eléctrico emite o equivalente a 50 gr de monóxido. Um carro a gasolina equivalente emite 100-120 gr. Tendo ainda em conta os custos ambientais de extração de um metal raro como o lítio e ainda a reciclagem dessas baterias no fim da vida, pode-se dizer que em termos de ganhos ambientais é quase tanto como na manutenção do Peugeot. Eu até arredondaria para zero.
Se ao nível de prestações qualquer carro a gasolina faz melhor que um eléctrico, o que é que ganhamos em comprar um carro eléctrico? Penso que só e apenas ter um produto diferente do convencional.
Concluindo, considero que este, não é de forma alguma o momento para comprar este tipo de veículos, a não ser que sejas um amante das novas tecnologias e não te falte o dinheiro.
Para valer a pena a compra, há que aplicar multiplicar e dividir por dois as desvantagens atrás citadas. Grosso modo, é necessário duplicar a autonomia e o tempo de vida das baterias e baixar para metade o preço de aquisição, a manutenção e o peso das baterias/veículo.
Isto ainda é só o início. Falta a concorrência começar a lançar os respectivos modelos. Por exemplo, nos hibrídos, a Toyota e a Honda dão como garantia para as suas baterias, 8 anos, um valor bem mais razoável do que os cinco da Nissan. E com o passar do tempo outros itens se irão ajustar às nossas expectativas. Há que dar tempo, muito tempo…
E com este pequeno estudo estabilizei as ideias e perdi de certa forma as expectativas iniciais. Continuo atento aos eléctricos, mas agora a minha opinião é que talvez os híbridos sejam uma boa solução de transição.